Décadas de pesquisa estão revelando como o cérebro forma — ou não forma — imagens mentais. De Galton a fMRI, a ciência está começando a desvendar o que torna cada mente única.
De uma observação vitoriana a estudos de neuroimagem, a compreensão da afantasia percorreu um longo caminho.
Francis Galton documenta pela primeira vez diferenças na capacidade de visualização mental em seu estudo estatístico sobre imagens mentais.
Paciente MX perde a capacidade de visualizar após cirurgia cardíaca. Dr. Adam Zeman, da Universidade de Exeter, investiga o caso e publica os achados.
Zeman cunha o termo "afantasia" (do grego a- "sem" + phantasia "imaginação") e publica estudo seminal na revista Cortex, descrevendo 21 casos.
Primeira evidência de fMRI: afantásicos mostram ativação reduzida no córtex visual durante tarefas de imaginação, confirmando uma base neurológica.
Estudos populacionais indicam que afantasia afeta aproximadamente 3–5% da população mundial — muito mais comum do que se pensava.
Pesquisas exploram a relação entre afantasia e memória autobiográfica, criatividade, processamento emocional e tomada de decisões.
A visualização mental envolve uma cadeia de comunicação entre regiões cerebrais. Na afantasia, essa cadeia funciona de forma diferente.
Fluxo do sinal neural
O córtex pré-frontal envia o comando. A rede frontoparietal retransmite. O córtex visual V1 ativa e gera a imagem. Você "vê" a maçã na sua mente.
O córtex pré-frontal envia o comando normalmente. A rede frontoparietal retransmite. Mas o córtex visual V1 não responde da mesma forma. O conceito existe — a imagem, não.
Cada estudo traz novas peças para o quebra-cabeça da afantasia. Aqui estão alguns dos achados mais significativos.
da população tem afantasia
Muito mais comum do que se acreditava. Estima-se que centenas de milhões de pessoas vivam sem imagens mentais voluntárias.
descobrem o termo pela internet
A maioria dos afantásicos passa décadas sem saber que sua experiência é diferente, até encontrar o conceito online.
Afantásicos tendem a recordar menos detalhes sensoriais de eventos passados, mas mantêm a memória factual intacta.
Não há correlação entre afantasia e QI. Afantásicos demonstram desempenho cognitivo equivalente em testes padronizados.
Muitos afantásicos reportam sonhos com imagens visuais — sugerindo que o "hardware" cerebral funciona, mas o acesso voluntário é bloqueado.
A pesquisa sobre afantasia está apenas começando. Estas são algumas das questões em aberto mais importantes.
Estudos preliminares sugerem componente hereditário: parentes de primeiro grau de afantásicos têm maior probabilidade de também ter a condição. Mas os genes específicos ainda não foram identificados.
Prosopagnosia — dificuldade de reconhecer rostos — aparece com frequência aumentada em afantásicos. Pesquisadores investigam se compartilham mecanismos neurais.
Casos como MX mostram que afantasia pode ser adquirida após lesão cerebral. Estudos exploram se técnicas de neurofeedback poderiam restaurar a visualização — mas ainda não há evidências conclusivas.
Afantásicos mostram menor reatividade fisiológica (frequência cardíaca, condutância da pele) a cenários emocionais imaginados, mas respondem normalmente a estímulos visuais reais.
Os estudos que fundamentam o conhecimento atual sobre afantasia.
Zeman, A., Dewar, M. & Della Sala, S. (2015).
Lives without imagery — Congenital aphantasia.
Cortex, 73, 378–380.
doi: 10.1016/j.cortex.2015.05.019Keogh, R. & Pearson, J. (2018).
The blind mind: No sensory visual imagery in aphantasia.
Cortex, 105, 53–60.
doi: 10.1016/j.cortex.2017.10.012Dawes, A.J., Keogh, R., Andrillon, T. & Pearson, J. (2020).
A cognitive profile of multi-sensory imagery, memory and dreaming in aphantasia.
Scientific Reports, 10, 10022.
doi: 10.1038/s41598-020-65705-7Milton, F., Fulford, J., Dance, C. et al. (2021).
Behavioral and neural signatures of visual imagery vividness extremes: Aphantasia vs. hyperphantasia.
Cerebral Cortex Communications, 2(2), tgab035.
doi: 10.1093/texcom/tgab035Dance, C.J., Ipser, A. & Simner, J. (2022).
The prevalence of aphantasia (imagery weakness) in the general population.
Consciousness and Cognition, 97, 103243.
doi: 10.1016/j.concog.2021.103243O VVIQ é o questionário mais utilizado pela ciência para medir a vivacidade de imagens mentais. Leva menos de 5 minutos.
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